Papa explica reforma litúrgica e reforça: fiéis não podem ser espectadores passivos na celebração
Ao concluir ciclo de catequeses sobre a Sacrosanctum Concilium, Leão XIV destacou que as mudanças promovidas pelo Concílio Vaticano II foram preparadas ao longo de décadas e fazem parte da tradição viva da Igreja
A participação dos fiéis na liturgia deve ir além da simples presença física na igreja. Na audiência geral desta quarta-feira (26), o Papa Leão XIV afirmou que os cristãos são chamados a participar das celebrações de maneira consciente, ativa e piedosa, entrando verdadeiramente no mistério que está sendo celebrado.
Realizada na Basílica de São Pedro, a catequese encerrou o ciclo dedicado à Constituição Sacrosanctum Concilium, do Concílio Vaticano II. Desta vez, o Pontífice apresentou as razões que levaram à reforma litúrgica e procurou situá-la dentro de um processo histórico mais amplo.
Segundo Leão XIV, as mudanças promovidas pelo Concílio não apareceram repentinamente e tampouco devem ser compreendidas como uma ruptura com aquilo que existia anteriormente. O caminho foi amadurecendo durante o século XX, especialmente por meio do Movimento Litúrgico e de iniciativas adotadas pelos Papas que antecederam o Concílio.
Participar com o corpo e com o espírito
Para explicar uma das preocupações que estavam presentes naquele período, Leão XIV retomou uma carta escrita em 1962 pelo então arcebispo de Milão, cardeal Giovanni Battista Montini, que posteriormente seria eleito Papa São Paulo VI.
Montini defendia que os fiéis não poderiam continuar silenciosos e passivos diante da liturgia. Décadas depois, Leão XIV recuperou a expressão para reforçar que estar fisicamente presente em uma celebração não basta quando falta uma verdadeira participação interior.
“A participação dos fiéis não pode ser passiva”, afirmou.
Essa participação, explicou o Papa, nasce da compreensão de que a liturgia não é um espetáculo ao qual o cristão simplesmente assiste. Por meio das palavras, gestos e sinais celebrados pela Igreja, torna-se presente a memória da obra da salvação e o fiel é convidado a estabelecer uma relação viva com Deus.
Foi justamente essa preocupação que encontrou espaço na Sacrosanctum Concilium. O documento conciliar pede que os cristãos não participem das celebrações como estranhos ou “espectadores mudos”, mas compreendam aquilo que celebram e estejam espiritualmente envolvidos na ação litúrgica.
Uma reforma preparada ao longo de décadas
Leão XIV também apresentou exemplos que demonstram como a renovação da liturgia já vinha sendo preparada muito antes da abertura do Concílio Vaticano II, em 1962.
Pio XI havia insistido na necessidade de maior participação dos fiéis. Posteriormente, Pio XII promoveu mudanças importantes, entre elas a reorganização das celebrações da Semana Santa, devolvendo os ritos aos horários mais próximos daqueles correspondentes aos acontecimentos da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo.
São João XXIII também realizou alterações no Breviário e no Missal, enquanto preparava o Concílio que posteriormente estabeleceria os princípios para uma reforma mais ampla.
Ao apresentar esse percurso, Leão XIV ressaltou que a liturgia nunca foi uma realidade imóvel. Ao longo dos séculos, formas, textos e ritos passaram por desenvolvimentos, sempre preservando aquilo que pertence ao núcleo da fé.
A reforma dentro da tradição
Para o Papa, compreender essa história é fundamental para interpretar corretamente as mudanças promovidas pelo Vaticano II.
“A reforma litúrgica promovida pelo Concílio Vaticano II se insere, portanto, na tradição viva da Igreja”, afirmou.
Leão XIV explicou que o Concílio procurou distinguir aquilo que, na liturgia, é divino e imutável dos elementos que podem sofrer modificações ao longo do tempo. O objetivo era permitir que os ritos expressassem com maior clareza os mistérios celebrados e favorecessem uma participação plena e comunitária.
Entre as preocupações da reforma estavam tornar mais acessíveis aos fiéis as riquezas da Sagrada Escritura e das orações litúrgicas e simplificar determinados aspectos das celebrações.
Ao mesmo tempo, o Pontífice reconheceu que, no período posterior ao Concílio, alguns princípios da reforma foram interpretados de maneira equivocada ou até mesmo absolutizados. Para Leão XIV, conhecer corretamente as intenções e os fundamentos da reforma ajuda também a identificar e evitar esses abusos.
Liturgia não pertence a escolhas individuais
Outro ponto ressaltado pelo Papa foi o caráter eclesial da celebração. As ações litúrgicas não são atos privados nem pertencem individualmente ao sacerdote, a um grupo ou a determinada comunidade.
Elas são celebrações de toda a Igreja.
Por essa razão, Leão XIV destacou a responsabilidade dos bispos e sacerdotes em zelar para que a liturgia seja celebrada de acordo com as normas da Igreja, sem perder sua identidade e sua finalidade.
O objetivo, segundo o Pontífice, é favorecer celebrações marcadas pela “nobre simplicidade”, nas quais os sinais, palavras e gestos permitam reconhecer a fé da Igreja e conduzam verdadeiramente ao encontro com Deus.
“É responsabilidade primordial dos pastores, dos bispos, mas também de cada sacerdote, zelar e promover uma liturgia que, no respeito pelas normas litúrgicas, brilhe por sua nobre simplicidade”, destacou.
Ao encerrar o ciclo de catequeses sobre a Sacrosanctum Concilium, Leão XIV apresentou a liturgia como instrumento de evangelização e de graça. É nela que os cristãos aprendem a oferecer a própria vida a Deus e, unidos a Cristo, crescem também na comunhão com os irmãos.
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Com informações de Vatican News