Papa publica primeira encíclica do pontificado e faz apelo: “Desarmar a Inteligência Artificial”
Na Magnifica Humanitas, Leão XIV alerta para os riscos da desumanização tecnológica e pede que a IA seja colocada a serviço da dignidade humana e da paz

O Papa Leão XIV publicou nesta segunda-feira (25) sua primeira carta encíclica, intitulada Magnifica Humanitas, um amplo documento dedicado à defesa da pessoa humana na era da Inteligência Artificial. Na encíclica, o Pontífice faz um forte chamado à responsabilidade ética diante das novas tecnologias e afirma que a humanidade precisa “desarmar a IA” antes que ela se transforme em instrumento de exclusão, dominação e guerra.
Inspirando-se na tradição da Doutrina Social da Igreja e retomando o espírito da histórica Rerum Novarum de Leão XIII, o Papa afirma que a Inteligência Artificial representa uma das grandes “res novae” — as “coisas novas” — do nosso tempo, comparável às profundas transformações provocadas pela revolução industrial no século XIX.
Durante a apresentação oficial do documento no Vaticano, Leão XIV explicou que a encíclica nasce de uma década de reflexões da Santa Sé sobre o impacto das novas tecnologias na sociedade contemporânea. Segundo ele, a IA já influencia decisões humanas, transforma relações sociais e altera até mesmo a forma como as guerras são travadas.
Ao longo das mais de 200 páginas da encíclica, o Pontífice insiste que a tecnologia não é neutra. Para ele, os sistemas digitais carregam as intenções, interesses e visões de quem os desenvolve, financia e controla. Por isso, afirma que não basta discutir apenas eficiência tecnológica: é necessário perguntar quem exerce esse poder e a serviço de quais interesses.
Leão XIV alerta que a humanidade corre o risco de construir uma nova “torre de Babel”, marcada pela pretensão de domínio absoluto da técnica e pela perda do sentido da dignidade humana. Em contraste, propõe como referência a reconstrução de Jerusalém narrada no livro de Neemias: uma obra coletiva, baseada na comunhão, na responsabilidade compartilhada e na presença de Deus.
Um dos pontos mais fortes do documento é a crítica à lógica que transforma pessoas em dados, números e performances. O Papa denuncia aquilo que chama de “desumanização tecnológica”, especialmente quando algoritmos passam a influenciar decisões sobre saúde, trabalho, segurança ou acesso a direitos fundamentais.
O texto também demonstra preocupação com o avanço das armas autônomas e da utilização militar da Inteligência Artificial. O Pontífice afirma que as novas tecnologias não podem ser desvinculadas da responsabilidade moral humana e adverte para o risco de uma escalada ainda mais desumana dos conflitos armados.
Ao falar sobre “desarmar a IA”, Leão XIV reconhece que utiliza uma expressão forte de maneira deliberada. Segundo ele, assim como a Igreja há décadas defende o desarmamento nuclear, também hoje é necessário impedir que a Inteligência Artificial seja utilizada contra a própria humanidade.
A encíclica dedica amplo espaço à necessidade de preservar aquilo que torna o ser humano verdadeiramente humano: a liberdade, a consciência, a responsabilidade moral, a capacidade de amar, de sofrer, de criar vínculos e de buscar Deus. O Papa insiste que nenhuma máquina será capaz de substituir plenamente a riqueza da pessoa humana.
Outro eixo importante do documento é o cuidado com os mais vulneráveis. Leão XIV denuncia novas formas de exclusão digital, dependência tecnológica e manipulação social, além de defender que o desenvolvimento científico esteja sempre subordinado ao bem comum e à justiça social.
Ao final da encíclica, o Papa dirige um apelo a toda a humanidade para que não tenha medo de assumir a tarefa de reconstruir o mundo com responsabilidade, fraternidade e esperança. Em vez de “arquitetos de Babel”, ele pede que os homens e mulheres do nosso tempo se tornem “construtores de comunhão”.
A Magnifica Humanitas marca uma forte entrada da Igreja no debate global sobre ética, tecnologia e dignidade humana na era digital.
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Com informações de Vatican News